Ataque dos EUA expõe fragilidade da diplomacia de Lula diante de Trump
O episódio expõe o desafio do Itamaraty de projetar estabilidade regional sem romper relações com a Casa Branca, hoje comandada pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump.
A ofensiva militar dos Estados Unidos contra o ditador Nicolás Maduro, realizada no sábado (03/01), colocou a diplomacia brasileira sob forte pressão num momento decisivo da reaproximação com Washington. O episódio expõe o desafio do Itamaraty de projetar estabilidade regional sem romper relações com a Casa Branca, hoje comandada pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump.
De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca preservar a retórica tradicional de soberania e pragmatismo. De outro, o Palácio do Planalto evita “queimar pontes” com os Estados Unidos — país com o qual obteve vitórias recentes contra o tarifaço imposto no ano passado. A ação americana em solo sul-americano ameaça o plano declarado do Brasil de exercer liderança regional, ao mesmo tempo em que diplomatas mantêm intensa agenda com autoridades americanas para reduzir sanções à economia brasileira.
Com a possível ampliação da influência dos EUA sobre a política doméstica venezuelana, o Brasil poderá ser forçado a discutir temas sensíveis de segurança regional, como narcotráfico e migração. O dilema confronta a histórica defesa petista de uma política externa baseada na autonomia regional, em oposição ao alinhamento automático às grandes potências. Embora Lula tenha anunciado no início do terceiro mandato que o Brasil havia retornado ao centro das negociações globais, a ofensiva de Trump na América Latina reduz o espaço de manobra brasileiro.
“A posição brasileira fica em uma situação bastante delicada”, avalia Vinicius Teixeira, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e doutor em Geopolítica. “A ação dos EUA mostra que o Brasil não conseguiu, a partir do diálogo, exercer a sua posição de negociador, como sempre defende. Não demoveu os Estados Unidos da intenção de ataque à Venezuela.”
Sem escalada retórica
Especialistas ouvidos pela imprensa internacional indicam que o Brasil deve manter o discurso de condenação à violação do direito internacional e alertar para riscos de instabilidade regional, sem elevar o tom contra Washington ou personalizar a defesa de Maduro. A estratégia busca preservar canais de diálogo com os EUA, fundamentais para lidar com impactos colaterais na região — tema que já entra no debate da eleição presidencial brasileira.
“O custo para o Brasil de um confronto direto com Washington sobe”, observa Bruna Santos, diretora do Programa Brasil do Inter-American Dialogue. “A diplomacia brasileira precisa separar a defesa de princípios da Carta da ONU da gestão pragmática da relação com os EUA.”
“Precedente perigoso”
Em manifestação divulgada nas redes sociais, Lula classificou o ataque americano como a ultrapassagem de uma “linha inaceitável”, apontando afronta à soberania venezuelana e um “precedente perigoso” que ameaça a região como zona de paz. Sem citar Trump ou Maduro nominalmente, o texto foi calibrado após reunião com representantes do Ministério da Defesa e orientou a atuação do chanceler Mauro Vieira em encontro emergencial da Celac, que terminou sem consenso entre os 33 países.
Um comunicado conjunto de Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai rejeitou “qualquer intenção de controle” sobre a Venezuela. Ainda assim, o chanceler venezuelano Yván Gil cobrou postura mais dura: “Calar-se diante dessa agressão equivale a endossá-la. A Celac não pode hesitar. Não pode se dividir entre condenações tímidas e silêncios cúmplices.”
Tradição diplomática e pressão regional
Apesar das cobranças, analistas apontam que o Brasil deve manter postura moderada também no Conselho de Segurança da ONU, em reunião convocada pela Colômbia. “Essa retórica tende a ser fortemente defendida pelo Itamaraty”, afirma Priscila Caneparo, doutora em Direito Internacional. Para o cientista político Rodrigo Prando, o pronunciamento de Lula foi comedido: “Washington espera exatamente isso do Brasil: que não haja uma crítica excessivamente dura”.
Enquanto isso, China e Rússia limitaram-se a reações formais na ONU, deixando a Venezuela sem proteção efetiva. A resposta tímida contrasta com a retomada da Doutrina Monroe sob Trump, que sinaliza a intenção de restabelecer a influência americana na América Latina.
Ao anunciar a prisão de Maduro, Trump deixou claro o interesse estratégico no petróleo venezuelano e indicou que voltará a se posicionar sobre Cuba e Colômbia. Para especialistas, a mensagem é de dissuasão regional, com potencial impacto direto no Brasil, inclusive no aumento do fluxo de refugiados — cenário para o qual o governo brasileiro já admite estar se preparando.
Disputa eleitoral no Brasil
No plano interno, a crise venezuelana já entrou no debate eleitoral de 2026. Opositores exploram a relação histórica entre o petismo e o chavismo para pressionar Lula. O governador paulista Tarcísio de Freitas criticou a nota brasileira contrária à ação americana, afirmando que o Brasil perdeu a chance de ajudar a Venezuela a iniciar uma transição democrática.
“As aproximações ou distanciamentos em relação aos Estados Unidos podem ter impactos eleitorais significativos”, conclui Vinicius Teixeira.
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